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O HORRENDO DEFUNTO DA LINHA DO TREM...

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O HORRENDO DEFUNTO DA LINHA DO TREM...

Mensagem por WLADIR SANTOS em 11/3/2010, 2:29 pm

O HORRENDO DEFUNTO DA LINHA DO TREM


O frio do inverno em Piracicaba era maior que o de hoje nos meus tempos de criança, não sei se pelo fato de que todos usávamos calças curtas, ou pela presença de matas muito próximas a nós ou ainda por qualquer outra razão que não importa aqui encontrar. Basta saber que era diferente do que hoje se vê, quando ele se torna perfeitamente tolerável no calor emanado do asfalto quente.



Nessa época, podíamos ouvir desde nosso poste da Prudente, no bairro dos Alemães, as águas do distante Salto do Piracicaba, fazendo aquele marulhar surdo e gostoso que hoje só se ouve perto dele e assim mesmo pelas madrugadas, quando os vampiros do trânsito desvairado já se recolheram.


Quando havia esse frio no mês de julho, todos nós esperávamos por algumas coisas que eram certas, mais ou menos como a fatalidade dos egípcios que esperavam pelas cheias do Nilo: a Princesa Ivete aparecia para alguns dias de férias na casa da Tia, nossas brincadeiras ficavam quase que restritas a contar estórias intermináveis de assombrações, caveiras, almas penadas, gritos angustiados ouvidos nas madrugadas e, de vez em quando, alguma brincadeira que não exigisse muito movimento do corpo. Os garotos ficavam então colados uns aos outros, cada um produzindo e recebendo calor dos próximos e em círculo, para que ninguém ficasse encostado em um só. Nenhum de nós gostava de encostar no Insto, pois o miserável não tomava, como todos nós, banhos aos sábados, e quando chegávamos em casa nossas Mães davam broncas monumentais pelo relaxamento e nos mandavam diretos para o chuveiro, o que no inverno era uma tortura.


Naquele ano (42 ou 43, pouco importa) corria a lorota de que um defunto tinha sido visto andando pela linha do trem. Era de arrepiar os pêlos do corpo o saber que todos os defuntos e caveiras tinham que vir nos assombrar. Defunto não: alma de um. Verdade verdadeira mesmo, pois teve quem viu.


O guarda-linha da Sorocabana tinha percebido a figura fantasmagórica e até chamado a atenção do vulto, por pensar que se tratava de algum bêbado ou boêmio cortando caminho para chegar à casa. Quando gritou para ele que era proibido circular pelos trilhos, o defunto teria parado bem sobre eles e ficado imóvel, calado, forçando que o guarda se aproximasse para ver de quem se tratava. Nem bem chegando perto, a alma foi se transformando em fumaça que se elevou rodopiando aos céus e emitindo um grunhido de lamento profundo, deixando o pobre guarda sem voz e desejoso de nunca mais retornar ao trabalho noturno. O bom e quase sempre sóbrio homem não mentiria sobre uma coisa dessas, pois se o fizesse iria atrair sobre ele todas as almas penadas do mundo.


Ouvíamos a descrição do defunto com os olhos esbugalhados, respiração tensa, tentando imaginar a figura dele para que, se a encontrássemos, pudéssemos sair correndo antes que nos apanhasse. Sujeito alto, magro como todas as caveiras, terno branco, olhos cavernosos, mãos descarnadas e aquele uivo lamuriento de arrepiar quando era visto.


O pessoal ouvia essas coisas todas, contadas mil vezes pelo Didi, que as tinha ouvido diretamente do seu vizinho, que era parente meio distante do vizinho do guarda-linhas que a tudo desmentia quando perguntado por nós, por certo para "não atrair a alma"...


Ouvíamos atentos, com os olhos voltados para a direção do cemitério, tentando penetrar a vista na escuridão de breu que o separava do nosso poste.


Qualquer vulto que se via, gato ou cachorro, era motivo para que a distância entre os garotos diminuísse ainda mais e o medo da alma aumentasse produzindo arrepios. Entretanto, não me lembro de nenhuma noite em que nos recolhemos mais cedo por medo do que escutávamos. Acho que esta foi a primeira.


Todos ali sabiam assobiar, e era sabido de todos que as almas não se aproximavam quando ouviam assobios. Contudo, se era remédio infalível, tinha como contra-indicação o fato de que os assobios provocavam o surgimento de sacis. Tinha que saber qual a hora certa para começar assobiar e o único ali que já havia visto e até lutado contra um saci era Insto, conforme nos contava do seu encontro com uma figura traquinas dessas, bem nas proximidades do bosque do coreto, perto do Salto.


Insto tinha entrado em luta corporal com um, derrubado o sujeitinho facilmente por ter uma perna só e dado nele tantas bordoadas que ele sumiu e nunca mais ousou vir assustá-lo. Ninguém mais dentre nós, porém quase todos os nossos tios e avós já teriam visto o pretinho de barrete vermelho e pito aceso. Eu me aproveitava dos assobios dos outros, pois o meu próprio nunca conseguiu passar de sopro sem som algum, o que me dava um desespero danado, ao ver que até Waldemar era capaz de fazer isso, quando tirava da boca sua chupeta.


Didi contava novamente naquela noite, pela décima vez, o que ouvira do vizinho e, quando esquecia algum detalhe, logo alguém o lembrava dele, como se estivesse faltando alguma coisa para o caso ficar completo. E a cada vez que contava, mais coisas novas iam surgindo, que tinham sido esquecidas antes. Foi nesse momento que um dos garotos do círculo (creio que foi o Lefão, mas nem me lembro exatamente quem), que estava de costas para o cemitério e perscrutando a escuridão na direção da linha férrea, avistou a ninguém menos que o defunto, só que estava voltando para o cemitério, depois de provavelmente ter assustado a alguma criança ou guarda-noite no lado oposto da cidade.


Avistou e deu o alarme, começando a assobiar como maluco, enquanto apontava na direção do vulto, sem conseguir dizer nada. Todos começaram a assobiar como doidos, enquanto que eu apenas soprava desesperadamente na esperança vã de ouvir algum ruído, sem que soubéssemos ainda dos motivos dos assobios. Quando olhamos na direção apontada, lá para as bandas do centro da cidade, pudemos ver claramente o defunto de branco vindo em nossa direção!


Nessa noite quem saiu correndo primeiro foi Insto, provocando a maior debandada entre nós. De alguma forma ele nos dava segurança. Eu corri para o portão da minha casa e, quando fui entrar, olhei para trás e puder ver que não havia mais ninguém sob a luz do poste. Fechei rapidamente a porta e corri para o meu quarto. Ia me meter sob as cobertas para rezar, quando fui movido pela maldita curiosidade e olhei pelas venezianas, mais interessado em constatar se o perigo havia passado.


Lembro-me que o susto foi monumental e indescritível, mesmo transcorridos tantos anos: o defunto parou bem à frente da nossa porta e bateu palmas! Tinha vindo ajustar contas comigo, com certeza, por alguma coisa que havia feito erradamente. Pavor! Urinei nas calças de medo...


De um salto só enfiei-me sob os cobertores e fiquei ali tremendo, mas não de frio. Minha Mãe atendeu às batidas na porta e o defunto foi recebido em nossa casa. Também não me recordo de nada mais nessa noite, pois creio que passei para o sono imediatamente.


No dia seguinte, quando lhe perguntei sobre a insólita visita, ela riu muito e, afagando-me, esclareceu: era o Sr Antônio Romero, barbeiro do meu Pai, sempre vestido de terno de brim branco, alto e magro como um palito, que tinha vindo nos trazer uns peixes de presente.


Mais à noite, sob o nosso poste, antes que eu pudesse esclarecer tudo aos demais, Insto nos contou que se arrependera de ter corrido de medo e voltara ali tão logo o defunto havia passado diante da sua casa. E, para demonstrar sua coragem na imagem ferida, teria acompanhado o vulto até perto do cemitério para ver mais de perto. Ele teria visto que na verdade era um defunto antigo, pois não tinha mais carnes e sim apenas ossos de uma caveira horrenda. Contou-nos que, chegando a alma perto do portão do cemitério, transformou-se em fumaça e se elevou em rolo até o céu.


Eu não disse nada para não levar uns tapas dele ao ser contrariado, mas não entendi o motivo pelo qual Insto precisou nos mentir naquela ocasião.





Última edição por s.beredicth em 27/9/2014, 9:39 pm, editado 1 vez(es)

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Re: O HORRENDO DEFUNTO DA LINHA DO TREM...

Mensagem por Tia Madá em 28/4/2010, 1:15 pm

Bere que história gostosa da infancia. Agora que estou na sua cidade é bom saber dos defuntos soltos por aí. Pelo já sei onde ficam os dois cemitérios e um dels com um muro muito bonito por sinal. Se você morou nos Alemães então não é longe de onde eu moro. estou no São Judas, a 4 travessas atrás da igreja, na Av. São João.
É realmente o barulho do salto não se escuta mais, mas em compensão, o frear dos carros em altíssima velocidade é um absurdo. Pirncipalmente nas madrugadas de sábado e domingo. A nossa rua é escape para quem sai da Carlos Botelho, com 30% da populção sendo estudantes, dos quais uns 25% de fora da cidade e todos com carrinho do papai fazendo a festa. Ficou realmente insuportável. Menos mal que só vamos ficar um ano nesta casa. Estamos para comprar alguma coisa, vamos ver o que nos preparou o futuro.

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