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A BATALHA QUE NÃO ACONTECEU FOI UM MASSACRE

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A BATALHA QUE NÃO ACONTECEU FOI UM MASSACRE

Mensagem por WLADIR SANTOS em 31/1/2010, 3:03 pm

A BATALHA FINAL

Nossas noites de infância eram gastas em vadiagem, dessas gostosas e saudosas, onde ninguém falava de escolas, banhos, garotas e outras coisas igualmente chatas. Vez por outra, tendo ido a alguma sessão de matinê, por dias seguidos revivíamos as cenas para os outros, mesmo que também tivessem assistido ao filme. Entretanto, isso era esporádico. Mais comum era os folguedos girarem em torno de estórias macabras e tenebrosas com caveiras, assombrações, mulas sem cabeça, sacis e outros seres de meter medo, com que nossos tios e avós tinham topado, além daquelas brincadeiras típicas de meninos, como jogar bola, balança-caixão, esconde-esconde, polícia, e outras com que passávamos nossas lentas horas e aguardávamos a chegada da puberdade. Todas elas, sob a luz mortiça do velho poste, único do quarteirão, mal chegando para alumiar o chão.

-"o pessoal da Cidade Alta desafiou a gente prá uma guerra..."

Foge-me agora à lembrança quem veio como porta-voz dos garotos daquele bairro, situado lá para as bandas do cemitério (cruz credo!), mas tenho uma leve impressão que falava em nome de um tal Gerinha, pretinho encrenqueiro que morava nesse bairro, fazedor de estrepolias, nutrindo velha rixa com o nosso Insto, iniciada não se sabia quando e nem porque[1]. O que sabíamos é que, tendo Gerinha nessa ocasião da desavença inicial por volta de dez ou onze anos, Insto tinha apenas quatro ou cinco, e teria saído vencedor de uma briga em que foi preciso outros entrarem para que se encerrasse. Depois dessa, haviam já se enfrentado várias vezes, mas o fato é que ele sempre apanhou do nosso pretinho, que nesse negócio de brigar era Mestre diplomado. Ele enfrentava gente bem maior, sem medo, e geralmente levava a melhor. Uma vez conseguiu botar para correr um garoto cuja idade e tamanho eram pelo menos o dobro da sua, tendo se dado ao luxo de correr algumas quadras atrás do assustado opositor, que não esperava tanta fúria e habilidade num garoto tão pequeno. O sujeito nunca mais passou pela nossa rua, preferindo contornar a quadra a ter que se defrontar com Insto novamente. Sua habilidade provinha de ser muito rápido com as pernas e de um gingar que fazia diante o adversário antes de passar-lhe eficiente rasteira que geralmente o derrubava ao chão, momento em que saltava sobre o coitado aos murros, também rapidamente desferidos no rosto, só parando mesmo quando visse um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca, ou tivesse deixado sua vítima com um olho roxo e roupas rasgadas. Nem se importava que isso lhe valesse algumas cintadas quando os familiares do inimigo fossem reclamar da surra aos seus pais.

Mas eu dizia do desafio: foi prontamente aceito por nós, num ímpeto de heroísmo em que Tinho, o Zorro, comandaria nosso exército. Insto seria melhor chefe, mas O Zorro meteria medo nos desafiantes e os colocaria a correr tão logo o vissem à frente da nossa turma. Afinal de contas, ter o Zorro do nosso lado era uma garantia prévia de vitória, e ele seria mesmo o comandante-em-chefe.

Levantou solenemente a mão direita, com a palma para baixo e todos tivemos que encostar nela o dedo indicador e gritarmos ao mesmo tempo: "um por todos, todos por um", exatamente como tínhamos visto na matinê de domingo os Três Mosqueteiros fazendo antes de uma luta, só que com espadas e não com os dedos.

Todos gritamos uníssonos as palavras de ordem, menos Ico, que não tendo assistido ao filme e não conhecendo a frase de solidariedade, gritou destoando de todos: "cada um por si, Deus por todos e salve-se quem puder". Levou imediatamente uma porrada na cabeça da parte do Tinho, para que aprendesse que a frase era outra, seguindo-se mais uma porrada da parte do Insto. Quase que perdemos um soldado, pois Ico não queria mais brincar, creio mais que por ter o brio ferido que por dor, já que nem chorou.

A batalha ficou marcada para dali a uma semana, por volta das 20:00 hs. e, como campo onde seria travada, ficou combinado o trecho da rua José Pinto de Almeida, entre a Prudente e a São José, onde existiam alguns casarões antigos, sempre fechados e escuros, cheios de fantasmas e habitados apenas por vampiros, nunca se vendo neles uma única lâmpada acesa. O local foi escolhido por ser longe das vistas das nossas mães, que não aceitariam essas manifestações de pequenos guerreiros. Nenhum de nós morava na Pinto de Almeida.

Passamos a semana toda fazendo nossas armas. Meu pai era marceneiro, tinha ferramentas e madeiras, e isso facilitou que tanto eu como meu irmão fizéssemos duas espadas com ripas, uma menor cruzada que serviria para proteção da mão, exatamente como a de Dartagnan. Fizemos também uma para o Zorro, a pedido do Tinho que era seu amigo e conhecido, e que nessa época estava apaixonado por uma prima nossa, deixando-nos ganhar bolinhas de gude e até nos dando um alçapão para caçar passarinhos. Além das espadas, que foram sendo aperfeiçoadas durante a semana até se apresentarem lixadas e envernizadas, também providenciamos três escudos com nossas armas de guerra desenhadas. No meu tinha uma caveira com dois ossos sob ela, no do Zorro tinha um "Z" ao contrário (quem desenhou foi Tinho... nós só copiamos pois nem na escola estávamos ainda). Não me lembro do que foi desenhado no escudo do meu irmão, mas apenas que era diferente dos outros dois.

Tinho havia tentado furar um sarrafo (o incrível é que conseguiu!) com um velho canivete e, pelo furo, meteu uma barra de ferro de construção, limada nas duas pontas, que fixou com uma bolota de cimento. Era uma clava, arma que poderia ser até mortal, pois ficou semelhante a um machado de primitivos homens de cavernas. Morte certa, se a ponta de ferro, dez centímetros de cada lado, fosse batida na cabeça de alguém. Outra arma mortal que ele havia produzido foi a seguinte: na ponta de um cabo de vassoura fez uma bolota de cimento, com tamanho de um punho fechado. Antes que secasse, enterrou nela uma porção de pregos grandes, dando-lhe aparência de um enorme ouriço.

Didi era o mais habilidoso e detalhado: fez um soco inglês raspando pacientemente com cacos de vidro a casca dura de uma purunga, mais dura que a do coco. Quatro furos, um para cada dedo e na parte que ficaria para cima, entalhou algumas saliências e reentrâncias como dentes de um serrote, mas com perto de um centímetro de altura. Além disso, esculpiu vários pequenos punhais em cabos de escovas de dentes, que seriam levados à cintura por todos. Deu-se ao trabalho de também fazer um anel usando um coquinho que pacientemente desgastou, onde na parte de cima gravou uma caveira em alto relevo, para marcar o rosto dos inimigos quando batesse neles.

Insto não tinha a menor intenção de fazer qualquer arma, confiando em que bateria em meio mundo com as mãos limpas. O que ele queria mesmo era se encontrar novamente com o Gerinha e fez-nos prometer que o negrinho da Cidade Alta "seria dele". E acrescentava, com ímpeto de coragem que nos enchia de entusiasmo e confiança: "prá batê naquele pretinho eu posso amarrá as mão nas costa..."

Tinho, O Zorro, tratava também de fazer um chicote com tiras de couro, de um relho surrupiado na distração do vendedor de verduras enquanto atendia nossas Mães. Depois de feito, passou vários dias tentando fazer com que estalasse, mas pouco conseguiu nesse sentido. Quanto ao fazer o "Z" na areia, nem pensar.

Não me lembro das demais armas, mas apenas que era um poderoso arsenal, que deveria meter pavor no exercito desafiante.

Quando Ico revelou que levaria seu estilingue (em suas mãos era arma mortífera, pois ele conseguia apanhar frutas acertando apenas nos pedúnculos que as ligavam aos pés), veio a notícia de uma regra para a batalha: estilingue não pode! Ficou furioso com isso, mas... regra era regra e tinha que ser respeitada.

Nós chegamos a pensar que entre nós tinha algum espião[2], pois a tudo o que inventávamos imediatamente surgia uma regra: "Não pode usar". Foi assim com o soco inglês, a maça com ferro de construção e o ouriço de pregos, os estilingues, as lanças com pontas afiadas e tudo o mais que pudesse representar perigo de machucados graves. Em resumo, os bandidões da Cidade Alta queriam mesmo era resolver as desavenças no tapa. Ainda bem que fomos cordatos com essas regras feitas em boa hora, pois caso contrário muita gente iria ficar ferida com seriedade.

O dia da batalha finalmente chegou. Nós estávamos em sete ou oito, com idades variando entre cinco e dez anos (Tinho não deixou que Waldemar entrasse na briga por ser muito criança em seus três anos e por usar inseparável chupeta da qual não queria abrir mãos), menos o nosso comandante que tinha onze e Didi que estava com treze. Gera e eu tínhamos cinco, meu irmão e Insto sete, Ico e João colchoeiro eu creio que nove ou perto disso.

Na noite azada nos encontramos sob nosso poste, armados até os dentes, para traçar os planos da batalha. Quem iria à frente era Tinho, o Zorro, já em seu disfarce com a calça cor de rosa da sua Mãe, o chapéu do Pai que lhe caía sobre as orelhas e, como capa, uma anágua também rosa, de cetim, da Mãe. Nos olhos, uma pequena máscara para não ser reconhecido. Iria à frente para meter medo nos bandidos. No final do pelotão iria o Didi, com um sarrafo nas mãos, pronto para castigar quem covardemente abandonasse a luta para fugir. E acrescentava, olhando diretamente para Ico:

-quem pensar que a briga vai virar "cada um por si e Deus por todos" ou ainda pensar que "salve-se quem puder", vai levar porrada minha...

Conforme nos explicara e convencera, ele mesmo não iria lutar, mas apenas ficar na retaguarda, como uma espécie de reserva e fiscal do exército.

Fizemos novamente o juramento solene e agora Ico fez certo, e nos dirigimos ao local combinado. Tinho, O Zorro, trotava seu cavalo imaginário, gritando a todo instante "eia, eia Silver... tã...tã...tã...tã...".

Enquanto aguardávamos os bandidos, ficamos treinando esgrima e Zorro passava rente a nós no trote, olhando para sua capa esvoaçante. Nem sei quanto tempo ficamos ali esperando, mas creio que não mais de vinte minutos.

Por certo estávamos sendo espionados há algum tempo, pois o exército inimigo não foi chegando de mansinho: ele virou a esquina correndo em nossa direção, uns cinqüenta ou sessenta moleques, de idades por volta dos quinze ou mais anos, como um bloco só, berrando como malucos, brandindo paus do porte de vigotas, atirando pedras com estilingues sobre nós, fazendo girar no ar cabos de aço, arremessando pedaços de tijolos... aquilo não era um exército: era uma boiada.

Nós teríamos que enfrentar, cada um de nós, cerca de cinco ou seis marmanjos. O cavalo do Zorro empacou de susto e não saiu do lugar, antecipando mentalmente o massacre que iria acontecer. Nem deu tempo de correr: os renegados caíram sobre nós aos tapas, pauladas e cintadas, e o primeiro a fugir do nosso grupo foi o Didi, antes mesmo que os bandidos chegassem até nós, logo que viraram a esquina. Largou seu sarrafo e correu, mas foi alcançado bem à porta da sua casa onde foi se homiziar, por um grupo de índios que lhe deram uma paulada na cabeça deixando um galo enorme e preto.

Insto lutou valentemente, contra cinco ou seis, um dos quais o Gerinha, e colocou-os por várias vezes ao chão com suas rasteiras, mas acabou sendo dominado e levou uns tapas nas orelhas. Lembro-me que, já agarrado, levando um tapa estalado, disse: "ui... isso dói..."

Minha espada quebrou-se de cara, quando um renegado deu uma vigotada nela, o mesmo acontecendo com a do meu irmão. Tinho, O Zorro, abandonou o seu cavalo ali e saiu correndo como quem estivesse sendo perseguido por uma caveira, berrando por misericórdia e pedindo socorro, e também foi perseguido até o portão da sua casa, onde no desespero se confundiu todo com o trinco e não escapou de algumas cintadas e pauladas nas costas. Seu chapéu foi levado como botim de guerra, o que lhe valeu depois uma surra do Pai.

Batalha? Nem houve... durou alguns segundos apenas. Os vencedores fizeram prisioneiros, sendo Insto e eu levados presos. Falando assim parece coisa simples, profissional, mas na verdade fomos arrastados, seis ou sete segurando cada um de nós pelos braços e pernas, berrando e chorando como malucos, com medo de que nos transformassem em couro de tamborins, como fazíamos com os gatos. Eu fui solto no Largo da Santa Cruz, quando um velho interveio repreendendo os vândalos, que concordaram em me soltar mas não ao Insto. Ele foi levado até a Cidade Alta e, a julgar pelo que estavam dizendo entre si, iriam jogá-lo dentro do cemitério quando desse meia-noite (cruz credo, escapei de boa!). Contudo, isso não assustava ao Insto, pois havia entrado ali por várias vezes e até teria conseguido fugir de algumas caveiras chutando-lhes o saco.

Ficou preso, amarrado, amordaçado e com venda nos olhos, até que os bandidos o lançaram por sobre o muro, bem antes da hora marcada. Ele caiu sobre uma lata, fez um corte na perna mas saiu correndo até o outro lado, escalou o muro e veio embora, depois de observar que todos os bandidos estavam em silêncio do lado de fora, espiando para ver onde ele estava e tentando ouvir seu choro.

Nossa guerra não foi nem comentada nos dias que se seguiram. Insto é que tentava pegar o Didi para uma surra, pois o responsabilizava pela debandada, porém este só surgiu por ali quando tudo já havia esfriado e os ânimos serenados. Já era coisa passada para todos, menos para Insto, que prometia vingança sobre Gerinha.

Mas isto será assunto para outra crônica.


[1] Quem trouxe a notícia do desafio foi este Editor, que não participaria da batalha por pertencer aos dois grupos simultaneamente. (nota do Editor)


[2] Na verdade não se tratava de espionagem, mas este Editor estava preocupado com a letalidade de algumas das armas e provocou o surgimento de algumas "regras" e impedimentos que, se não ocorressem, a briga poderia provocar muitos acidentes, inclusive fatais. (Nota do Editor)

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WLADIR SANTOS

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Re: A BATALHA QUE NÃO ACONTECEU FOI UM MASSACRE

Mensagem por Martinha em 1/2/2010, 10:13 am

Muito ótima sua postagem, Berê.
Ontem fiz um exercício aqui em casa, para saber qual das suas crônicas é mais gostosa de ser lida. Estávamos em cinco pessoas. Sabe qual o resultado?
TODAS! Todas igualmente gostosas e importantes, sobretudo para se conhecer o mundo infanto-juvenil dos anos 40 e 50...
Parabéns novamente pela sua cultura invejável.
Um bjo de todas nós (que me pediram para colocar aqui em nome delas).
Martinha
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Re: A BATALHA QUE NÃO ACONTECEU FOI UM MASSACRE

Mensagem por Leticia em 12/2/2010, 3:41 pm

Linda Beredit!
Adorei tua nova crônica.
Aproveito para te dizer que estamos (minhas amigas e eu) fascinadas com seu forum. Parabéns.
Vou trazer várias delas para cá.
Um bjo
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Leticia

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Re: A BATALHA QUE NÃO ACONTECEU FOI UM MASSACRE

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