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A ALMA DO POMAR DOS FRADES

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A ALMA DO POMAR DOS FRADES

Mensagem por Admin em 19/11/2009, 11:48 am

A ALMA DO POMAR DOS FRADES.

(do livro CONTANDO CAUSOS... PARA MIRIAN. SANTOS, Prof Wladir dos, MM – MAX 1986- SP)



Insto era o único dentre nós capaz de sair do bairro, circular pela cidade e voltar são e salvo. Nosso mundo era pequeno, representado pelo quarteirão da Prudente de Moraes, entre a José Pinto de Almeida e a Sta. Cruz.

Os mais velhos também saíam, mas isso era raro. Contudo, nós íamos ficando cada vez mais velhos, sem que tivéssemos consciência disso. O meu mundo se alargava quase que a olhos vistos, e já me arriscava a chegar ao Largo de Santa Cruz, à Igreja do Bom Jesus, à casa dos meus avós (bem no fim da Sta Cruz e início da Carlos Botelho) e, vez por outra, até a praça central, mas evitando sempre passar pela rua Benjamim, pois ali era o prostíbulo e minha mãe recomendava que nunca circulasse nessa rua.

Na Paulista havia um pomar enorme, belíssimo, pertencente aos frades, onde podia-se avistar por sobre o altíssimo muro, durante o ano todo, árvores carregadas de frutas. Eu nunca tinha circulado por lá, no outro extremo da cidade, coisa que só Tinho, Didi e Insto faziam. Um dia um deles chegou até ali, bateu à casa dos frades e pediu algumas frutas. O frade não deu, e teria respondido muito marotamente: “se quiser frutas vá plantar”. Ele estava certo, mas demorava para crescer, e a vontade era naquele dia, naquela hora... O frade não entendia sobre vontades de crianças, provavelmente porque nunca tinha sido uma ou não tinha filhos.

Com certa freqüência Insto ia até esse pomar dos frades roubar frutas que distribuía a todos nós.

Ele gostava mesmo era de roubar e distribuir, provavelmente se sentindo um herói ou pessoa muito importante, com todos pedindo-lhe insistentemente alguma fruta. Fazia questão de distribui-las ele mesmo, uma a uma, e preferia dar aos menores. Coitado do Didi! Já estava cansado de pedir em vão, pois além da primeira (que todos recebiam), não via mais nenhuma.

Ele mesmo tinha comido tantas no próprio pomar que nem se importava em ficar sem mais algumas.

Certa feita veio com a camisa toda manchada de tinta, pelo que levou uma surra do pai.

Ele tinha ido roubar uvas (era dezembro e as parreiras estavam forradas de enormes cachos de uvas pretas, daquelas que os frades faziam vinho), e as colocara dentro da camisa, de sorte que ficara recheado com elas, em torno do corpo todo, dando-lhe um aspecto um tanto grotesco, como se fosse uma pêra com pernas e braços.

Nessa noite ele estava com a camisa cheia de cachos de uvas, pretas, maduras, quando o frade bravo saiu à porta dos fundos e gritou com ele, ameaçando soltar os cães que tinha amarrados em correntes. No seu desespero, saltou para o muro e espremeu os cachos contra ele. Por pouco não foi apanhado e, se fosse, teria sido obrigado a confessar tudo, se desejasse ir para o Céu, onde gente mentirosa não entrava.

Ele nos contava, bem depois disso, que uma vez um outro frade, bem velhinho, pegou-o dentro do terreno roubando sapotas. [1]

Para não amassar essas frutas dentro da camisa, o que faria um desastre maior e enorme nas roupas, preferiu esconder-se atrás de um pequeno rancho, onde eram guardadas as ferramentas da horta e pomar, tendo ficado ali muito quieto, tremendo, esperando que o velho entrasse novamente.

O frade olhou fixamente para todo o escuro terreno e fez menção de entrar novamente, mas acabou ficando ali mesmo por um bom tempo, em que teria fumado pelo menos dois cigarros.

Transcorrida essa meia hora mais ou menos, aquele outro frade bravo apareceu à porta segurando um cão por uma corrente. Ele não via Insto, mas o cão sentiu seu cheiro, o que não devia ser muito difícil para seu faro. Até a gente sentia, quando estava chegando o dia dele tomar banho...

O segundo frade entrou novamente sem dizer uma única palavra e levou com ele o cão que rosnava como quem não estaria gostando do que via, mas não latiu nenhuma vez. Cachorro desses bravos, grandes, que não latem mas mordem. E mordem duro.

O bom e velho frade fixou o olhar na direção do Insto durante alguns minutos, levantou-se da cadeira e veio em sua direção, amparado por uma vareta de guarda-chuva como se fosse uma bengala. Insto ficou imóvel, achando que não tinha sido visto ainda, tentando se lembrar das letras das rezas que aprendera no catecismo, mas fazendo uma mistura dos diabos:

-Salve Rainha...orai por nós... perdoai os pecadores e ladrões de frutas... Pai Nosso que está no Céu... cheio das graças...Mãe de Deus...

Chegando perto dele, o bom frade disse em voz alta, cavernosa, como se estivesse rezando ou pedindo a Deus alguma coisa:

- Que as almas do outro mundo
venham para pegar.
As crianças que roubam
frutas deste pomar...

Almas de outro mundo?

Quando Insto saiu correndo para não ser apanhado pelas tais almas, o frade rapidamente enganchou em sua cintura o cabo da bengala, agarrando-o em seguida.

Insto teria ficado branco de susto, imóvel, e fez até menção de devolver as sapotas, mas o frade não as aceitou. Ao invés disso, disse-lhe com muita bondade na voz:

-Quando você vier pegar frutas no pomar, entre pelo portão da frente e só apanhe as que estiverem maduras... Se você entrar como entrou, o cachorro pode estar solto e machucá-lo... e aquele outro irmão que você viu aparecer com o cachorro não gosta de gente que vem aqui para pegar frutas... além disso, você pode ser confundido com um ladrão...

E soltou Insto que, rapidamente, saltou sobre o muro e, dali, para a rua. Antes de descer do muro ele, ainda assustado, teria olhado para trás mas não tinha visto mais o frade. No lugar onde se encontrava havia apenas um rolo de fumaça iluminada que permanecia estático onde ele fora apanhado. Nós ouvimos essa aventura nem sei quantas vezes e, verdadeira ou não, Insto não queria mais ir até lá para roubar frutas, e por alguma razão chegava a discutir com quem pensasse em fazer isso. A figura do velho frade nos parecia simpática, pois ao invés de fazer como o outro, que provavelmente iria prender e torturar Insto para confessar o roubo, praticamente não tinha ligado para ele e até o havia convidado para ir buscar mais.

Certa noite Insto se cansou de ficar inativo, e nos convidou a todos para que fôssemos até o pomar. Só Gêra não foi, pois sua Mãe surgia freqüentemente à porta da casa para saber onde ele estava.

Foi a maior aventura que havíamos tido até então.

Era por volta das vinte horas quando chegamos ao lado do pomar. Subiram ao muro: Insto, Tinho e Didi. Os demais ficaram na rua, pois não tinham altura para a escalada.

Os três permaneceram sobre o muro alguns minutos olhando para dentro do terreno para tentar ver se o cachorro ou os frades estavam ali escondidos, mas não os vendo saltaram dentro terreno no mais absoluto silêncio. Falavam baixinho, mas creio que nem tanto porque nós podíamos ouvir os cochichos desde a rua.

- Cuidado... lá vem o frade... escondam-se...

Era a voz do Tinho. Seguiu-me um silêncio sepulcral durante alguns minutos, para desespero dos que se encontravam na rua.

- Há há! Peguei-os... O que vocês estão fazendo aqui, seus ladrões? Digam,... o que estão fazendo aqui dentro? Digam... digam...

Era o frade bravo, provavelmente com um dos garotos agarrado, pois se estivessem soltos saltariam por sobre o muro rapidamente. Pelo jeito não estava com seu cachorro. Quem respondeu ao frade com uma desculpa esfarrapada foi Insto:

- viemos mijar...

- mijar uma merda...Vocês vieram é roubar frutas...!

- só mijar, seu frade...juro!

- não jure em falso, moleque, que é pecado! O que vocês estão escondendo aí?

- algumas mangas que estavam no chão...

No lado de fora do muro todos os menores começaram a chorar, mas pelo menos no meu caso são era pelo aperto em que se encontravam: eu achava que seriam presos, torturados para que confessassem e não saberíamos como voltar para casa.

Ouvimos vozes de outros frades chegando.

- deixa que eles se vão... são apenas crianças que queriam algumas mangas... esclareceu uma voz grave, cavernosa, como se fosse de gente muito velha.

Devem ter sido levados para dentro do mosteiro, pois as vozes foram sumindo e desapareceram por completo quando uma porta se fechou.

Nosso desespero ali na rua provavelmente era maior que o dos garotos presos.

Passados cerca de dez minutos um frade velho, com uma bengala, virou a esquina e veio em nossa direção. Era aquela alma que Insto já havia topado antes. Ficamos todos paralisados, e o irmão do Ico chegou a urinar na calça de tanto medo.

- venham comigo... seus amigos estão aqui dentro... venham buscar frutas...

- nós não queremos... nem gostamos de frutas...

- então venham mijar... disse o velho frade de voz cavernosa ao ver um dos meninos todo molhado de urina.

Por alguma razão não ficamos com medo desse homem, que não nos pareceu nenhuma alma. Nós o seguimos até a entrada do mosteiro e entramos.

Ali dentro encontramos os três heróis sentados num banco, quietos, sem falar nada, e nos juntamos a eles.

Passados alguns minutos o velho frade ressurgiu na sala, com um saquinho de papel pardo cheio de mangas e o entregou ao Insto, que visivelmente era seu preferido.

- tomem... levem estas mangas para casa, e quando quiserem mais venham pela porta da frente pedi-las, mas não saltem mais o muro para roubar e nem para mijar... e venham durante o dia, quando será mais fácil pegar as frutas maduras...

Nós ficamos ali bom tempo, ouvindo o velho e bondoso frade nos falando sobre o pecado, textos da Bíblia que condenavam o roubo e a mentira, e coisas assim.

Passado esse tempo, ele nos mandou para casa, sem que nos fizesse nenhuma tortura para que confessássemos qualquer coisa.

Todos nós beijamos, ainda um tanto ressabiados, a mão do velho, que ainda nos deu alguns cartões com imagens de santos, e retornamos para nosso mundo, onde saboreamos as frutas, creio que duas ou três cada um de nós.

Não voltaríamos mais ao pomar dos frades, pelo menos à noite.

Quando, transcorridos dois ou três meses Didi ressurgiu em nosso grupo e veio com a sugestão de irmos até o pomar para aproveitar a época dos jambos, ninguém aceitou seu convite. Havia como que surgido um consenso entre todos nós que roubar frutas naquele pomar era coisa que não devíamos fazer.

Naqueles dias todos nós fomos ver um presépio animado que estava montado na rua da Boa Morte, perto da Igreja das Madres e, ao sair dali, fomos até o mosteiro para ver se o velho frade cumpriria sua promessa de nos dar frutas.

Quem nos atendeu, contudo, foi o frade bravo.

- o que vocês estão querendo novamente aqui?

- queremos falar com o frade velho.

- porque querem falar com ele?

- ele disse que quando quiséssemos frutas para que viéssemos durante o dia pedir-lhe, ao invés de durante a noite para roubar...

O frade bravo ia responder qualquer coisa, mas nada disse. Mandou que esperássemos ali e retornou com um saquinho pardo cheio de jambos maduros.

- e o velho frade, ele não está? - perguntou Insto apenas para revê-lo, pois ele passou a gostar muito dessa pessoa.

- Não... - respondeu secamente o frade bravo, acrescentando em seguida com voz mais doce: ele morreu...

Quando íamos saindo o frade bravo nos disse, com lágrimas nos olhos:

- quando quiserem frutas venham durante o dia e façam como hoje... eu as darei para vocês...

Nós voltamos para casa sem trocar entre nós uma única palavra. Não me lembro de ter voltado ao pomar, nem de dia e nem à noite. Creio que o velho frade, falando com bondade, mudou muito em nós todos, inclusive no frade bravo...

Eu ainda guardo o meu santinho junto com as demais lembranças que fizeram parte da minha vida e tiveram algum significado para mim. e lamento não ter guardado o nome do velho frade, se é que em algum momento ele nos disse...


[1] Para quem não conhece, sapota é uma fruta de casca verde, semelhante ao abacate na cor, mas à maçã no formato, cuja polpa é uma massa preta, como se fosse aquela graxa que se coloca em rodas da carroças. Come-se com colher, mas só está madura quando a casca fica escurecida, como se fosse abacate passado do tempo. Taunay, relatando as epopéias dos bandeirantes demandando as minas de Cuiabá pelo Rio Anhembi (Tietê) afirma que se alimentavam de "umas frutas chamadas sapotai, pretas..." exintentes às margens do rio, próximo às plantações do homem-só...Segundo o conceituadíssimo autor e historiador, possivelmente a espécie já estaria extinta. Contudo, em Piracicaba havia três frondosas árvores dessa espécie: uma na chácara do Dr João Pacheco Chaves, outra na Escola de Agronomia e uma no pomar dos frades.
Quando eu consegui uma dessas frutas, distribui as sementes para duas familias, além da que ficou para mim. Só uma germinou e, alguns depois, tornou-se uma frondosíssima árvore que iria dar frutos pela primeira vez. Acontece que a família que a havia plantado vendeu a propriedade e a nova proprietária ou inquilina, abateu-a para que "entrasse sol sobre uma plataforma de zinco onde colocava roupas para tomar sol... Seria o quarto sapoteiro conhecido e o único de Americana. Foi uma pena isso.

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Re: A ALMA DO POMAR DOS FRADES

Mensagem por silvia em 20/11/2009, 12:01 pm

Berê.
Esta crônica sua é tão comovente que não pude conter lágrimas nos olhos, que teimavam só ver as coisas ruins que eles ultimamente enxergam. A atitude do "frade velho" (e precisaria de um nome?), é proverbial em termos de educação e formação, como Você mesmo sabe com incrível maestria.
As atitudes do velho conseguiram mudar os comportamentos dos meninos e, mais que isso, solucionar a intolerância do "frade bravo", ao ponto dele querer continuar no lugar do falecido, com os mesmos ideais.
Foi uma pena que as crianças não seguiram no mesmo ritmo de retornarem ao mosteiro, quando teriam sacramentado, de uma vez por todas, a personalidade benfazeja do frade velho.
Parabéns por mais esta...
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Re: A ALMA DO POMAR DOS FRADES

Mensagem por Mélida em 20/11/2009, 12:30 pm

Beredicth
Eu diria mais ou menos o que disse a ótima Silvia no comentário acima. Acrescento apenas isto: o contraste entre os dois frades, o velho e o bravo, marca posições de visão do mundo e das pessoas, razão pela qual o "frade bravo" sempre se fazia acompanhar de um cão, "O segundo frade entrou novamente sem dizer uma única palavra e levou com ele o cão que rosnava como quem não estaria gostando do que via, mas não latiu nenhuma vez. Cachorro desses bravos, grandes, que não latem mas mordem. E mordem duro", envolvido em defender o que lhe parecia ser uma propriedade pessoal, enquanto o frade velho era amparado por uma vareta de quarda-chuvas, símbolo bastante universal da sabedoria e da circunspecção. Duas épocas dentro da imóvel instituição onde viviam, onde a bondade de um velho (representada pela vareta do guarda-chuva, não letal) e a maldade do bravo, (representado pelo cão agressivo e mortalmente perigoso), salta aos olhos. Duas épocas, dois temperamentos, duas visões de mundo se completando dentro do mesmo espaço.
A desculpa das crianças sobre a presença dentro dos muros é hilariante, mas real: o viemos mijar é um apêlo a uma necessidade não reconhecida pelo frade bravo ou frade-com-cão, a quem competia zelar pelos frutos da propriedade. Mais hilariante ainda foi a resposta dada: mijar uma merda... que praticamente teria encerrado o diálogo não fossem os preceitos do dogma da vida do frade, condenando a mentira deslavada com -este sim encerramento da questão- "mentir é pecado".
A Silvia disse aqui, com muita propriedade, que chorou ao final. Pois eu confesso que também aconteceu o mesmo comigo, muito mais ao final, ao saber que ainda guarda o santinho que o frade velho lhe deu.
Duas perguntas, se puder nos responder, dada a frequência como o Insto é citado: de onde vem o nome dele?

A segunda: às vezes, pelos coloridos dos seus textos, sou tendente a acreditar que as narrações são de fatos verídicos em sua vida. São?
Outra

Um beijo
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