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INVADINDO O CEMITÉRIO À NOITE

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INVADINDO O CEMITÉRIO À NOITE

Mensagem por Admin em 16/10/2009, 1:40 am

O mundo dos garotos sempre foi o mesmo, em todos os lugares e em todas as épocas: sonhos e imaginação fértil se misturando e tornando-o cheio de vida, marcando cada um de nós de forma diferente.
O nosso mundo não poderia ser outra coisa, especialmente à noite, quando todas as obrigações chatas já haviam sido cumpridas, e tínhamos que enfrentar as imensas levas de fantasmas e caveiras que aguardavam entocaiadas para pegar crianças distraídas e incrédulas.
Nosso poste, sob a luz mortiça do qual ficávamos reunidos todas as noites das dezenove às vinte e duas horas, era uma espécie de local de encontro apenas nosso. Quando ia chegando essa hora já iam saindo os garotos das casas e se dirigindo para ele, como que guiados por uma força superior e compulsiva. Dez... onze garotos, com idades variadas entre três e onze anos. Meninas não entravam em nosso grupo, pois eram chatas demais, não queriam brincar de pega, polícia, futebol, fantasmas e outras coisas sadias, preferindo pular amarelinhas, brincar de casamento chinês, barrabol, passa-anel e coisas assim.
No mais das vezes, especialmente quando havia frio e nos sentávamos bem próximos um ao outro, nosso entretenimento era contar estórias terríveis, dessas que nos deixavam dias sem poder dormir sossegados. Geralmente estórias de assombrações, de almas que vinham atormentar pessoas desprevenidas, caveiras brancas e com os ossos fazendo horríveis ruídos de chocalhos, que também ficavam à nossa espreita para saltarem sobre nós na primeira oportunidade em que estivéssemos distraídos.
As melhores estórias sempre tinham sido vividas pelos nossos avós, pais, tios... e raramente uma tinha ocorrido com um de nós. Creio que mesmo que isso acontecesse, quem a viveu preferiria colocá-la no rol de experiências dos avós, pais e tios, de quem nunca se duvidava.
No calor as brincadeiras eram outras, geralmente jogos diversos.
Mas, este caso se deu no inverno de 1944.
Nós estávamos sentados sob a luz do poste, falando de caveiras e fantasmas que seguramente estavam por perto. Os olhares ressabiados, penetrando na escuridão de ambos os lados da rua Prudente, para além da Santa Cruz e da José Pinto de Almeida, podiam divisar sombras brancas de almas penadas caminhando apressadas pela rua, e os ouvidos atentos podiam escutar lamentos profundos e agoniados, que nossos pais diziam ser apenas de gatos.
Quem provocou foi Didi:


- Insto... você tem coragem de entrar no cemitério à noite e sair no muro do lado oposto?
-Claro que tenho... aposto uma gengibirra...
Podiam apostar à vontade, de gengibirra à uma fazenda, pois que nunca ninguém pagava nada.
E lá fomos nós todos, dez ou onze garotos, subindo pela mais que soturna rua Prudente, que a partir da S.João não era mais rua porém picada, feita em meio a um enorme bambual que, ao vento, parecia soprar frases de outro mundo em nossos ouvidos. Perto de mil metros de picada fechada, que só dava para passar uma pessoa por vez...
Todos assobiando, pois que era sabido que os fantasmas e caveiras por alguma razão se afastavam quando as pessoas assobiavam. Eu me agoniava com isso, pois que meu assobio não era além de sopro, sem barulho algum, de sorte que apelava para meu anjo da guarda para que me protegesse. E ele atendia invariavelmente, pois nunca me deparei com uma caveira em toda a minha infância, pelo menos até essa noite.
Chegamos ao bosque do cemitério: mata fechada, com picadas entre as árvores, mas já podendo divisar o longo muro amarelo que dava para a hoje avenida Independência, naquela época estrada que demandava Tietê, poeirenta, escura, assombrada em cada touceira de capim alto, em cada árvore existente em suas margens.
Insto chegou, viu o muro e argumentou, meio arrependido, que era muito alto para ele, melhor sendo que voltássemos ao nosso poste. Não era alto, contudo, especialmente para Insto, habituado a subir em telhados de casas, correr em cima de muros, saltar de alturas bem maiores que a sua. Quando ele disse isso, Didi caiu sobre ele chamando-o de covarde e querendo cobrar a gengibirra. Com a insistência dos outros, Didi e Tinho fizeram anquinha e Insto foi colocado sobre o muro. O garoto estava lívido, branco como cera de vela de defunto, exigindo silêncio de todos nós, enquanto seus olhos tentavam penetrar naquele imenso negrume onde pululavam caveiras de todos os tipos e tamanhos. Depois de muito perscrutar, de um só salto pulou para dentro do cemitério e se pôs a correr no sentido do muro oposto. Nós corremos por fora, rodeamos a área e fomos esperá-lo lá onde iria sair.
Podia-se ouvi-lo chegando, pelo assobio trêmulo que vinha aumentando de volume rapidamente, até que suas mãos apareceram no muro. Tentando ajudá-lo, Didi pegou as mãos para puxá-las para cima, o que valeu um urro enorme do Insto, suficiente para que ambos corressem em sentidos contrários, levando a todos nós à mesma reação, até que Insto colocou a cabeça sobre o muro e ergueu rapidamente o corpo. Havia ganho a aposta, mas não a gengibirra, que para ser paga teria que ser sacada no tapa, o que só aconteceu no dia seguinte.
Insto virou herói novamente para todos nós. Estávamos de volta pela mesma trilha do bosque, com ele contando em detalhes o que lhe acontecera lá dentro:
-"assim que pulei lá dentro, saíram de trás de um túmulo duas caveiras, uma grande e uma pequena, de criança, com os braços levantados à altura dos ombros, emitindo um lamento horrível e com os olhos brilhantes como lanternas... quando eu parei assustado com elas, para perguntar o que queriam de mim, senti uma mão ossuda pegando em meu ombro por trás... virei-me rapidamente e percebi que era uma outra caveira que me agarrava... então dei um chute bem no saco dela, e enquanto ela caiu se contorcendo de dor, saí correndo para o outro lado... outras caveiras tentaram me pegar, mas eu estava assobiando como louco e corri tanto que não tiveram chances..."
Aquilo nos parecia demais, aventura prá ninguém precisar de avós, pais e tios... e eu fiquei pensando ali, naquele instante, em como precisava aprender a assobiar urgentemente.
Mais ou menos na metade do bosque, quando vínhamos todos bem próximos uns aos outros, a maioria assobiando, os menores de mãos dadas, eu apenas soprando e Insto contando sua aventura, um vulto branco saiu de trás uma árvore e entrou em nossa trilha, cambaleando, vindo em nossa direção, proferindo alguns palavrões... Vimos depois que era um bebum que provavelmente se encostara para descansar sob a árvore e acabara dormindo ali, mas para nós era um fantasma a mais. Foi um Deus nos acuda ! A debandada foi geral, mas todos os garotos conseguiram passar pelo fantasma que, também assustado pelo acontecido, saiu correndo no sentido contrário.
Nenhum parou para esperar a ninguém na trilha do bambual, salvo Insto, o único que propositadamente ficou para trás, cuidando de nós menores. Ele teria chances de ser o primeiro a chegar sob o poste, pois era o mais rápido entre todos, mas chegou com os garotos menores, depois que os grandes já haviam se reunido ali e olhavam na direção do cemitério para nos ver chegando, na maior choradeira e sob ameaça de levar uns cascudos.
Por bom tempo essa aventura tinha que ser contada e saboreada diariamente pelo Insto, e a cada vez que a repetia colocava uma coisa nova, ora aumentando o número de caveiras e fazendo-o atingir centenas, ora colocando um tombo que levara ao tropeçar num caixão largado no meio da alameda, ora afirmando que caíra numa cova recém aberta, ora ainda colocando múmias que avançavam perigosamente para ele... Entretanto, o que mais nos fascinava não era o número de caveiras, fantasmas e múmias, mas a coragem que teve quando desferiu um chute no saco de uma delas para poder fugir.
Nós não voltamos mais ao cemitério, salvo nos dias de Finados, com nossos pais. A cada vez que eu ainda entro ali pelo portão da Avenida Independência, recordo-me da aventura desse grande amigo e tento identificar o local exato onde ele se encontrava quando teve que brigar com a caveira.

_________________
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